quinta-feira, 17 de março de 2011

O CHICO E O JOGO DE BURACO

Gostava de jogar buraco com meu pai. Ele não gostava de perder de jeito nenhum! Parecia o sargento Tainha quando ficava bravo porque alguém havia batido o jogo e ele tava com a mão cheia de cartas...mais algumas escondidas embaixo da mesa que ele, no momento oportuno faria um monte de canastra e pegaria fácil o inimigo. Mas quando era pego de calças curtas e alguém batia o jogo e o deixava com as mãos e bolsos cheios de cartas, ele ficava tão furioso que parecia o sargento Tainha.

Normalmente seu parceiro era o sr. João, seu vizinho, a quem ele mesmo ensinou o homem a jogar. Minha parceira era, ou minha mãe ou uma das minhas irmãs. Embora fôssemos mulheres ele sempre dizia: seo João, cuidado com os homi. Eles roubam (elas, no caso, éramos nós, as mulheres)...cuidado seo João... não deixa eles ver as cartas (nesse português mesmo)...  Tanto fervor para jogar baralho era sua devoção, principalmente aos domingos. Hora de missa era hora de missa e, caso não havia dado tempo de terminar o jogo, ele tomava as cartas de todo mundo e as colocavam em seu bolso...para ninguém roubar... Certa vez, estava esse devoto, na fila da comunhão, minha irmã atrás dele, enfiando a mão no bolso de sua camisa e mexendo nas cartas dele, que nem podia dar bronca e nem falar nada a não ser tentar tirar as mãos dela, para ele não passar mais vergonha ainda. Quando não estava jogando, ia para a cozinha fazer um bolo, ou coxinha e depois ficávamos na sala ouvindo seus causos pois ele, como todo bom mineiro, sempre tinha uma história engraçada para contar, outras meio tristes mas  sempre interessantes.  Algumas até hoje fico na dúvida se eram reais ou não, tal era a dramaticidade do fato. Muitas vezes repetia o mesmo conto e eu ficava assombrada de surpresa – para alegria dele -, como se fôsse a primeira que  tinha ouvido. Gostava de ouvir do tempo que nós morávamos na roça e, certa vez encontrou um macaquinho, tadinho, sem mãe, meio fraquinho já, acho que estava com fome. Ficou procurando e nada de encontrar a mãe, então levou-o para nossa casa e o criou com mamadeira, mas como nossa casa ficava no meio da floresta, não havia cercas, ele viveu, por muito tempo  feliz, de vez em quando sumia na mata. Depois aparecia de novo, até que um dia sumiu de vez. Vai ver – concluiu meu pai – que havia feito família e foi embora para sempre.  Eu também conheci um macaquinho, e, quando o vi a primeira vez, lembrei dessa história que meu pai contara. Trabalhando numa instituição de pesquisa, conheci o Chico, mas ele não estava solto, nem podia ir e vir como é direito de toda criatura  que habita esse planeta. Na verdade, é triste contar mas ele estava em uma gaiolinha, pequena demais, para o seu tamanho. Acostumei a visitá-los quase todos os dias pois era só descer um lance de escadas, onde era o laboratório que ele ficava. Eu pegava na sua mão e ele ficava procurando peles de meus dedos, como se tivesse tirando minhas cutículas. Aqueles olhos grandes e tristes como dizendo: você poderia fazer algo por mim? Como eu era nova no meu serviço, não tinha noção que tipo de experimentos faziam com tais animais. Você encontra pesquisadores que falam baixo, macio, super educados, mas não se faz idéia, do que  acontece com os animais nas mãos deles. Não estou chutando o balde e nem criticando, pois muitas instituições sérias têm comissão de ética e já deixaram há muito tempo de usar esse tipo de animal e muitos outros que já não ficam em laboratórios...os que eu conheço...  Mas sei e muita gente sabe que para colocar aqueles avisos nos produtos que usamos: tinta de cabelo, creme, descoloração etc... muitas são testados em animais.  Os avisos que diz: pode cegar, causar isso, causar aquilo... tudo já foi testado nas pobres criaturas... ah, mas as pesquisa são necessárias... Eu, quando vou passar uma tinta no cabelo, não pego o meu bichano de estimação e passo o produto nele e fico aguardando para ver se vai dar coceira, cegueira, se vai cair o pelo ou  não. Coloco um pouco numa parte da cabeça que, se cair o cabelo, ninguém vai sentir, se começar a queimar ou coçar eu tiro imediatamente e tome leite e corre para baixo do chuveiro! Por que o bichinho tem que ficar na linha de tiro, e eu só fico com a beleza? Muitas belas que andam por aí, usam esses produtos. Se você não confia, use algo mais natural e menos agressivo. Fazer experimentos no seu bichinho de estimação nem pensar né? Então, deveríamos ir a fundo  e apoiar empresas que lançam seus produtos que produzem resultados às vezes muito melhores e não usam os pobres animais como cobaias O Chico? Ah é...verdade...ia me esquecendo...Um dia desci no laboratório e não estava mais lá. Perguntei dele e o professor disse, sorrindo: foi sacrificado.

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